Ladislau Dowbor[1]
17 de junho de 2013
Eu tinha vinte anos. Que
ninguém me
diga que é a mais bela
idade da vida.
Paul Nizan, Aden,
Arabie
O transporte numa cidade como
São Paulo é sem dúvida caótico. Anos de poder de empreiteiras e montadoras
articuladas com políticos fisiológicos a seu serviço nos deram muitos viadutos,
túneis e ruas paralisadas por 7 milhões de veículos. A apropriação da política
urbana pelos sucessivos malufismos gerou uma estagnação do transporte coletivo.
O Paulistano perde uma média de duas horas e quarenta minutos no trânsito por
dia. E na ausência de transporte de massa decente, quem mora na Capela do
Socorro acorda às 5 da manhã para chegar na hora ao emprego, volta para casa às
9 e adormece no sofá vendo bobagens. Vida de família?
Não tenho aqui a pretensão de
explicar a juventude, nem de dar conselhos sobre os movimentos. Mas o contexto
dá para delinear. Há tempos ajudei a organizar um livro para as Nações Unidas, Cities for Children, ou seja, cidades
para crianças. Recusaram o título que eu propus inicialmente, que era
“Administrando as Cidades como se as Crianças fossem Importantes”.[2] A realidade é que crianças e jovens
representam um terço da população, mas as políticas urbanas foram organizadas
para a faixa etária superior, e para as elites. Não se trata de 20 centavos,
trata-se de um saco cheio generalizado com o caos urbano gerado, que transtorna
a qualidade de vida das pessoas, e dos jovens em particular.
Não é tão difícil assim colocar-se no lugar do
jovem. Sai da escola sem nunca ter visitado uma empresa, uma repartição
pública, uma organização da sociedade civil. A separação radical entre as fases
de estudo e do trabalho, produz uma geração de jovens desorientados, à procura
da sua utilidade na vida. Se cruzarmos esta situação com as dinâmicas do
trabalho, a ausência de perspectivas torna-se muito forte, a não ser em alguns
grupos privilegiados. Na realidade, no processo produtivo onde os conhecimentos
passam a desempenhar um papel preponderante, em vez de estudo e trabalho serem
etapas distintas da vida, devem crescentemente constituir um processo
articulado onde aquisição de conhecimentos e a sua aplicação produtiva devem enriquecer-se
permanentemente. Isto se organiza.
Sentir-se inútil numa fase da
vida em que o jovem chega disposto a fazer e acontecer, gera sem dúvida um
sentimento de profunda frustração. Poder fazer uma coisa útil parece constituir
um favor, alguém “deu” um emprego. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que
no conjunto, o who you know (quem
você conhece) tornou-se um fator mais importante de avanço profissional do que
o what you know (o quê você conhece,
as suas competências). O mundo para o jovem passa a ser visto como um universo
opaco e fechado, gerando desânimo e passividade, e frequentemente revolta e
violência.
Esta tendência tem de ser
colocada numa perspectiva mais ampla. As nossas crianças e os nossos jovens são
criados num referencial de família muito frágil: com os dois pais no trabalho,
o trabalho distante da casa, casais frequentemente separados, o silêncio no
binômio sofá-televisão: constrói-se assim muito pouco balizamento entre o bem e
o mal, muito pouco sentido de vida. Nos Estados Unidos apenas 25% dos
domicílios têm pai, mãe e filhos. O joy-stick
basta? A grande solução apresentada seria o tempo integral da criança na
escola, em nome da educação, mas liberando os pais no horário completo.
Um outro universo que
contribuía muito para a construção de valores era a rua, a vizinhança. Ali, não
era ainda o mundo¸ mas também já não era a família, ali a criança e o jovem
testavam a sua presença social, delimitavam gradualmente os valores da amizade,
o peso das rivalidades, construíam os seus espaços de sociabilidade. Hoje,
nenhuma mãe em sã consciência diz à criança que vá brincar na rua. Fica
sossegada quando as crianças estão sentadas no sofá, comendo salgadinho, e
vendo “vale tudo por dinheiro”. Porque na rua é o perigo, são as drogas, as
gangues, os acidentes de carro, o medo. Não inserimos mais as crianças no
mundo, buscamos apenas protegê-las. E quando chega o momento inevitável de sua
inserção, desabam sobre elas desafios difíceis de suportar.
Os pais perdidos entram em
intermináveis discussões sobre se devem ser mais permissivos, ou colocar mais
limites, sorrir ou gritar, e terminam, quando têm dinheiro, lamentando-se com o
analista. O analista pode sem dúvida ajudar quando os problemas são
individuais, mas não resolverão grande coisa quando se trata de um processo
socialmente desestruturante.
A escola pequena, de bairro,
frequentada por pessoas que convivem de uma maneira na escola, e de outra nas
ruas da vizinhança, mas pertencendo ao mesmo tecido de relações sociais, era
outro espaço de construção de referências. Boa parte disto subsiste no
interior. Nas grandes cidades, e frente a uma construção escolar onde se buscam
absurdas economias de escala (quanto maior, mais barato), gera-se um universo
de gente que só se encontra na escola. Os universos sociais do local de
residência e do local de estudo só se cruzam eventualmente. Na própria classe
média, é patético ver mães que passam horas no trânsito para levar uma criança
a brincar com outra no outro lado da cidade, porque já não aguenta a solidão em casa. E no outro lado da
cidade, o coleguinha terá os mesmos videogames, o mesmo “vale tudo por
dinheiro” na televisão. Se juntarmos os efeitos de desestruturação do
referencial familiar, da ausência do referencial de vizinhança, e da perda da
presença social local da escola, e acrescentarmos o cinismo dos valores martelados
horas a fio na televisão, que valores queremos que eles tenham?
Os pais ficam indignados:
eles bebem, eles fumam, eles se drogam, eles transformam o sexo numa aeróbica
banalizada, eles não vêm sentido nas coisas...O que é que nos fizemos para dar
sentido às suas vidas? Todos nós estamos ocupados em ganhar a vida, em subir
nos degraus absurdos do sucesso¸ como é que as crianças vão entender o nosso
sacrifício como útil?
A compreensão de que se matar
de trabalho para construir uma vida sem sentido, ainda que com a garagem que
ostenta um belo carro, e entulhada de esteiras de ginástica e outras relíquias
de entusiasmos consumistas passageiros, sem tempo para fazer as diversas coisas
que poderiam ser agradáveis, ou belas, – filtra gradualmente para dentro das
nossas consciências, ainda que continuemos todos a correr sem rumo. Será que os
nossos filhos realmente não vêm o absurdo das nossas próprias vidas? E que rumo
isto aponta para elas? A verdade é que a vida reduzida a uma corrida individual
pelo sucesso econômico, com a ilusão de que tendo sucesso, e por tanto
dinheiro, compraremos o resto, é uma absurda ilusão que nos levou à civilização
de guetos de riqueza e miséria que hoje vivemos.
É significativo que em muitos
lugares jovens, e até crianças, às vezes com apoio dos professores – outra
classe á procura do sentido do que ensina – estão arregaçando as mangas e
começando a tomar iniciativas organizadas. Vimos na Itália um movimento de
crianças pela recuperação das praças. Um filme-reportagem feito pelas próprias
crianças mostra a passeata, a negociação com a prefeitura, e o resgate
progressivo de praças transformadas em estacionamento, para que voltem a ter
água, árvores, espaço para brinquedos e jogos, uma dimensão de estética, de
lazer, de convívio. Em muitas cidades já há câmaras-mirins, e não se podem
aprovar projetos de espaços públicos sem o aporte do interesse organizado das
crianças. Em muitos lugares, foram organizados trajetos seguros, acompanhando
as principais rotas das crianças entre as escolas e lugares de lazer, parar
melhorar a sua mobilidade e sentimento de liberdade na sua cidade: a tecnologia
é simples, são aqueles passinhos pintados na calçada, semáforos, algum reforço
de policiamento. O que estas experiências têm em comum, é o sentimento, por
parte das crianças, de estarem recuperando o seu direito à cidade, à cidadania.
Em Valparaíso, vimos uma
experiência de crianças de rua que, com o apoio de uma ONG, passaram a resgatar
os espaços vazios de um bairro, a organizar as suas próprias bandas de música,
eventos culturais, a ponto que hoje as seis escolas formais do bairro se
associaram ao projeto, e desenvolvem atividades de resgate dos espaços
públicos, fazem aulas sobre meio-ambiente melhorando o próprio entorno, estudam
ciências sociais melhorando o ambiente social do bairro. Aqui também, a cidade
é deles, e fazer uma coisa útil e prazerosa não é o resultado de um emprego que
lhes “dão”, mas de uma iniciativa que lhes pertence.
O que isto aponta, na
realidade, é a necessidade de evoluirmos de uma visão em que a organização
social se resume a um Estado que faz coisas para nós, e de empresas que
produzem coisas para nós, para uma visão em que a sociedade organizada volta a
ser dona dos processos sociais, e articula as atividades do Estado e das
empresas em função da qualidade de vida que procuramos. A expansão das
organizações da sociedade civil, a força do terceiro setor, as políticas de
desenvolvimento local e em particular do bairro, o resgate das funções sociais
do Estado, o surgimento da responsabilidade social e ambiental das empresas, a
crítica às grandes corporações da especulação financeira, do monopólio de
produtos farmacêuticos, de comercialização de armas, o próprio surgimento muito
mais amplo da noção de que um outro mundo é possível, pertencem todos a um
deslocamento profundo de valores que estamos começando a sentir na sociedade em
geral.
Como indivíduos, podemos
melhorar a nossa casa, batalhar o estudo para os nossos filhos, comprar um
carro melhor. Mas as mudanças sociais dependem de organização social. O
sentimento de desorientação é sentido como sofrimento individual, mas as raízes
e as soluções são mais amplas.
[1]
Laidslau Dowbor é professor da PUC-SP, economista e consultor de várias
agências das Nações Unidas. A presente nota se apoia no estudo mais amplo A
Economia da Família, http://dowbor.org/2013/05/economia-da-familia.html/
[2] Cities
for Children, ideias sobre como poderiam ser organizadas as
cidades se levássemos em conta as crianças. Sheridan Bartlett
et al., Cities for Children,
Earthscan, London 1999 www.earthscan.co.uk